quinta-feira, 8 de outubro de 2015

GORDOFOBIA: O MEDO DA ABUNDÂNCIA


O conceito de gordofobia ainda não está presente em dicionários, mas poderia ser definido como “o medo, desconforto ou repulsa a pessoas gordas”.

É o asco em ter que ver pessoas de vastas proporções existindo, comendo ou até mesmo trabalhando. É não aceitar que tais seres humanos são semelhantes, e pura e simplesmente pelo tamanho de seus corpos. No entanto, a população brasileira vem ganhando quilos a mais, sendo que pesquisas do IBGE mostram que cerca de 10,5 milhões de brasileiros com 20 anos ou mais são obesos.

Tal fato social afeta ainda mais as mulheres. A obesidade é considerada uma doença que pode acometer todos em geral, todavia, ela atinge ainda mais as mulheres, as quais podem ser consideradas ainda mais afligidas pela gordofobia.

Pesquisas apontam que ainda hoje o salário das mulheres é cerca de 30% mais baixo que o dos homens, com base na mesma posição ocupada por ambos os sexos. Porém, estando na situação das mulheres que sofrem com o preconceito contra o grande volume de seus corpos, estar fora do padrão de normalidade vigente as afeta mais do que os homens em igual situação de obesidade. Enquanto os homens podem disputar mais igualitariamente com outros homens magros por vagas diversas, isso não acontece com a mesma frequência para a mulher obesa. Elas são mais afetadas pelo estereótipo de desleixo, preguiça ou propensão a doenças, independentemente do tipo da vaga almejada ou da doença de cada uma, especificamente. Cargos que exijam contato com o público em geral normalmente não são ocupados por esse tipo de mulher a não ser que sejam voltados a um público plus size.

Não só. Os estereótipos vão além, bem como os argumentos que justificam o preconceito velado contra a gordura. Se até então ela era vista como sinal de status e fartura, hoje foi convertida como um sinal de doença. Neste sentido, há duas grandes visões acerca de um grande corpo feminino: o da doença e/ou a hiperssexualização.

É normal para as mulheres pertencentes a este grupo serem alvo de comentários que dizem respeito a seu peso ou dieta sem que isso faça parte da conversa. Talvez seja numa consulta ao oftalmologista na qual ela receba uma advertência por seus pneus a mais (sendo que seu problema de visão não tem absolutamente nada a ver com seu tamanho) ou numa conversa amistosa com pessoas novas que admitem que ela deva comer quilos de comida só porque seu manequim é maior do que o das outras mulheres. Dicas sobre novas dietas são “sempre bem vindas” mesmo quando não requisitadas, sob o argumento de que quem está fazendo o comentário maldoso e/ou “construtivo” se preocupa com a saúde da moça.

Não só. Também é comum para esta ala feminina ser taxada como mulher fácil ou carente, uma vez que o tamanho de suas gorduras fosse determinante para poder amar e ser amada. É comum ouvir pessoas dizendo que elas são mais fáceis porque “nenhum homem a quer a não ser que seja pra comer” ou que “ela é gorda demais para arranjar um namorado bonito e legal.”

Como se uma mulher pudesse ser definida apenas pelo tamanho do seu corpo e pela aprovação dos homens acerca do quanto seus corpos podem ou não ser desejados. Como se este único fator fosse determinante para decidir seu valor e dignidade.

Por outro lado, em passos de bebê caminhamos para uma tão esperada mudança de visibilidade social. Atualmente existem lojas especializadas em moda plus size; bancos azuis no metrô de São Paulo para pessoas obesas e movimentos de Orgulho Plus size, coisas estas que quase não eram vistas há 15 ou 10 anos atrás. De qualquer forma, ainda há muito o que fazer.

Na mídia, muitas vezes tais mulheres ainda são excessivamente retratadas como perdedoras, solteironas ou atrapalhadas, geralmente em papéis de comédia. Vide a personagem de Fabiana Karla, Perséfone, na novela exibida pela Globo em 2013, Amor à Vida. São poucos os programas que as mostram como mulheres comuns que tem uma vida normal ou que as retratem como um exemplo de empoderamento feminino.

Mesmo assim, apesar de todo o tipo de preconceito enfrentado por essa ala feminina, legalmente ainda nada foi feito por esta minoria. Talvez seja pertinente observarmos uma origem para este preconceito especificamente. A gordura, símbolo de fartura, abundância e riqueza, perdeu seu status para representar o excesso desequilibrado, bem como a preguiça e desleixo. Mas por quê?

Se formos pensar em todas as imagens idealizadas do corpo da mulher ao longo da história, é possível perceber que o ideal de beleza sempre foi voltado para o que fosse mais difícil de ser conquistado pela maioria, fosse pela alimentação farta em tempos de escassez extrema (como na Idade Média ou Renascença) ou pela restrição alimentar em tempos de gordura trans, açúcar, sódio e conservantes. O que apreende-se disso é uma tentativa velada – ou não – de restringir o corpo da mulher para contextos externos e sociais os quais, ao invés de interagirem naturalmente com seu corpo, devem ser evitados ao máximo. Como se fazer parte de uma minoria exclusiva, pudesse fazer de uma pessoa alguém mais valioso socialmente.

Besteira. Agora só nos deixe viver com nossos corpos grandes e voluptuosos, cheios de curvas. Deixe-nos ser chamadas de gordas sem ter o peso de uma palavra ruim (como chamar de “moreninh@” uma pessoa negra com o objetivo de diminuir a carga pejorativa de ser um afro-descendente). Sim, nós podemos ser gordas ou obesas. Uma mulher pode ser/estar gorda, velha ou feia, sendo todos estes adjetivos determinantes para seu valor social e cujo cerne está voltado para a aparência. Mas um ser humano é mais do que apenas um corpo, uma casca. Uma mulher vai muito mais além do que o tamanho de seus peitos, sua barriga ou pés. Mulher é um ser único e cheio de facetas que não pode e jamais deveria ter sido julgado apenas por seu tamanho.


Publicado aqui

Nota da GorDivah: Gordofobia também é você não ter espaço na sociedade, é ter sua acessibilidade negada, embora seja garantida por lei. É também ter que lidar com espaços públicos que não estão preparados pra nos receber, como se nós não existíssemos. É não caber, literalmente, não ter espaço físico na sociedade, em situações banais do cotidiano, como pegar um ônibus e ter que enfrentar uma roleta que não comporta seu tamanho, que oferece risco de te prender, machucar e colocar em situação de risco, precisando até mesmo de resgate dos bombeiros, é ter que se espremer numa poltrona de cinema porque o estabelecimento está descumprindo a lei e ignorando seus cliente gordos, etc.....





Beijões Queen Size,

Claudia Rocha GorDivah