quarta-feira, 5 de junho de 2013

O Corvo

  Em certo dia, à hora, à hora
      Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
      Ao pé de muita lauda antiga,
   De uma velha doutrina, agora morta,
   Ia pensando, quando ouvi à porta
   Do meu quarto um soar devagarinho,
      E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
      Há de ser isso e nada mais".

      Ah! bem me lembro! bem me lembro!
      Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
      A sua última agonia.
   Eu, ansioso pelo sol, buscava
   Sacar daqueles livros que estudava
   Repouso (em vão!) à dor esmagadora
      Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
      E que ninguém chamará mais.

      E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
      Dentro em meu coração um rumor não sabido,
      Nunca por ele padecido.
   Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
   Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
   (Disse) é visita amiga e retardada
      Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
      Há de ser isso e nada mais".

      Minh'alma então sentiu-se forte;
      Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós,— ou senhor ou senhora,
      Me desculpeis tanta demora.
   Mas como eu, precisando de descanso,
   Já cochilava, e tão de manso e manso
   Batestes, não fui logo, prestemente,
      Certificar-me que aí estais".
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
      Somente a noite, e nada mais.

      Com longo olhar escruto a sombra,
      Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
      Mas o silêncio amplo e calado,
   Calado fica; a quietação quieta;
   Só tu, palavra única e dileta,
   Lenora, tu, como um suspiro escasso,
      Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
      Foi isso apenas, nada mais.

      Entro coa alma incendiada.
      Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
      "Seguramente, há na janela
   Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
   A explicação do caso misterioso
      Dessas duas pancadas tais.
      Devolvamos a paz ao coração medroso,
      Obra do vento e nada mais".

      Abro a janela, e de repente,
      Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
      Não despendeu em cortesias
      Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
      De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
      Movendo no ar as suas negras alas,
      Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
      Trepado fica, e nada mais.

      Diante da ave feia e escura,
      Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
      Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
   Vens, embora a cabeça nua tragas,
   Sem topete, não és ave medrosa,
      Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
     E o corvo disse: "Nunca mais".

      Vendo que o pássaro entendia
      A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
      Dificilmente lha entendera.
   Na verdade, jamais homem há visto
   Cousa na terra semelhante a isto:
   Uma ave negra, friamente posta
      Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
      Que este é seu nome: "Nunca mais".

      No entanto, o corvo solitário
      Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
      Toda a sua alma resumisse.
   Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
   Não chegou a mexer uma só pluma,
   Até que eu murmurei: "Perdi outrora
      Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora".
      E o corvo disse: "Nunca mais!".

      Estremeço. A resposta ouvida
      É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
      Que ele trouxe da convivência
   De algum mestre infeliz e acabrunhado
   Que o implacável destino há castigado
   Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
      Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
      Esse estribilho: "Nunca mais".

      Segunda vez, nesse momento,
      Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
      E mergulhando no veludo
   Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
   Achar procuro a lúgubre quimera,
   A alma, o sentido, o pávido segredo
      Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
      Grasnando a frase: "Nunca mais".

      Assim posto, devaneando,
      Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
      Sentia o olhar que me abrasava.
   Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
   Com a cabeça no macio encosto
   Onde os raios da lâmpada caíam,
      Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
      E agora não se esparzem mais.

      Supus então que o ar, mais denso,
      Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
      Do quarto, estavam meneando
   Um ligeiro turíbulo invisível;
   E eu exclamei então: "Um Deus sensível
   Manda repouso à dor que te devora
      Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora".
      E o corvo disse: "Nunca mais".

"Profeta, ou o que quer que sejas!
      Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
      Onde reside o mal eterno,
   Ou simplesmente náufrago escapado
   Venhas do temporal que te há lançado
   Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
      Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
      E o corvo disse: "Nunca mais".

      "Profeta, ou o que quer que sejas!
      Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
      Por esse céu que além se estende,
   Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
   Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
   No éden celeste a virgem que ela chora
      Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
      E o corvo disse: "Nunca mais".

      "Ave ou demônio que negrejas!
       Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
      Regressa ao temporal, regressa
   À tua noite, deixa-me comigo.
   Vai-te, não fique no meu casto abrigo
   Pluma que lembre essa mentira tua.
      Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
      E o corvo disse: "Nunca mais".

      E o corvo aí fica; ei-lo trepado
      No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
      Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
   Um demônio sonhando. A luz caída
   Do lampião sobre a ave aborrecida
   No chão espraia a triste sombra; e, fora
      Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
      Não sai mais, nunca, nunca mais


Edgar Allan Poe