sexta-feira, 12 de abril de 2013

Batalha contra o câncer

Tem coisas na vida que não dá pra evitar, por mais que você queira, e médico no acompanhamento pós câncer é uma delas...vou aproveitar o post para contar um pouquinho da minha história. Fevereiro do ano passado, na semana do Carnaval eu fui operada às pressas por causa de uma apendicite, quase morri, fui acordada da cirurgia com gritos ao longe dizendo: RESPIRAAAAA! RESPIRA PELO AMOR DE DEUS!!! Ouvi que não tinha respirado direito na cirurgia por causa do peso etc...pensei só faltava essa agora!!  E por praxe o apêndice(no meu caso havia  metade apenas, pois o câncer havia devorado o resto) é encaminhado para biópsia. Meu pós operatório foi horrível, continuei me sentindo mal, com dor, mas não a alucinante de antes....o tempo passou e fui para consulta de revisão da cirurgia. Chegando lá, ainda estava me recuperando, mas como nunca havia operado nada na vida, achei que era assim mesmo. Quando o médico perguntou se eu estava com acompanhante, pensei, ih rodei!! Não deu outra, o diagnóstico foi um tumor maligno na base do intestino grosso. E este câncer estava secretando substâncias no meu organismo que acabaram inflamando o peritônio(película que envolve todo o abdômen), estimulando acúmulo de gordura, inflamando pele e pulmões, por isso quase morri na primeira cirurgia. Nunca pensei que ouviria isso de um médico, nem que veria minha família passar por isso novamente, vivenciar toda dor, pois meu pai morreu de câncer; mas, novamente era minha vez de bancar a forte...eu sou meio estranha mesmo, quanto pior a situação, mais séria e centrada fico, minha família desabando em choro e eu lá: - Tah legal doutor, mas, e aí que que a gente faz agora?
O médico me olhou meio espantado e então escolhi passar por outra cirurgia, mas dentro de mim, lá dentro falava muito sério mesmo com Deus, papo retíssimo! Eu não tinha escolha, precisava ser forte por mim e por minha família, e é nestas horas que você descobre quão dura você consegue ser diante da vida. Nestas horas você descobre que por mais que você seja amada, ninguém pode viver sua dor por você. E lá ia eu para segunda cirurgia e menos de 3 semanas, batendo o record da família. Uma cirurgia de grande porte, retirada de uma porção do intestino grosso, delgado, religação de ambos, retirada de todos os linfonodos da região, vistoria de todos os órgãos....e envio de tudo isso para biópsia, e mais um período de espera para saber até que ponto o câncer tinha crescido...foram as três semanas mais longas da minha vida!! A mais longa foi quando fiquei no hospital uma semana após a cirurgia, era tanta sonda que me sentia um dróide......

Acho que deu para imaginar como eu estava por dentro né? Agora imagina você passando por isso tudo e ainda tendo que escutar que por você ser obesa teve câncer e que se não emagrecer terá que fazer redução de estômago? Eu não sabia que tinha  tanto auto-controle, pois minha vontade foi xingar muito o médico e mandar ele catar coquinho em pé de alface! Fiquei muito chateada com isso, onde já se viu, obesidade ser fator desencadeador de câncer! E pra piorar, preciso fazer acompanhamento por 5 anos!! Infelizmente, por este motivo, me vejo obrigada a emagrecer, mesmo me amando obesa, mas não quero ficar magrela não!! Foi muito para mim, desde então eu tenho mudado muito por dentro, a maneira de viver, sentir, reagir, épocas de maior fragilidade, tristezas por causa de decepção com pessoas que andaram para meu risco de morte, que não mandaram nem um SMS com "Te vejo do outro lado sua cachorra ou já vai tarde"...isso durante um bom tempo me deixou tão triste, mas tão triste que larguei a vocação Amélie Poulain, de fazer o mundo das pessoas à minha volta bem melhor para se viver, deixei de mimar as pessoas, até que digeri o desprezo, a tristeza, a decepção, o descaso do abandono e decidi simplesmente voltar a ser quem sempre fui, independente da dor que me causaram. Liguei o LET IT BE e segui em frente.

Esta semana eu percebi que esse silêncio no qual mergulho às vezes quando acho que alguém não me quer por perto ou interagir comigo, pode ser interpretado como orgulho ou um joguinho, coisas que odeio e não faço mesmo. As pessoas estão tão desacostumadas a respeitar o tempo e espaço do outro que não entendem minha opção de não encher o saco, sufocar ninguém, decisão de respeitar o silêncio alheio em silêncio também...as pessoas são muito estranhas mesmo...Quando fico quieta, dizem que estou esquisita...acho que preciso de uma bússola para me dirigir na interação com as pessoas no cotidiano porque tô perdidinha aqui rsss....

Quando você sobrevive ao câncer, é inevitável você mudar e ter outra percepção de vida, inevitável as pessoas à sua volta acharem que o tumor voltou quando você passa mal por algum motivo, como se você andasse com um ceifador na sua cola...Você se transforma em outra pessoa, passa por uma metamorfose mesmo, só que eu acho que saí do casulo cedo demais, quero voltar pra lá....as asas demoram muito para secar e mesmo assim eu ainda não quero voar...estou cansada! Quero parar o mundo e descer um pouquinho, só um pouquinho. E aí quem sabe um dia pedir para alguém parar, só por um instante, para me dar a mão e me ajudar a subir nele de novo.